Abertura do cortejo do bloco Garotas Solteiras, em Belo Horizonte, no carnaval de 2019

Foto: Lucca Mezzacappa

Músicas para

todos os gostos

Nem só de axé, samba e marchinhas vive o carnaval de Belo Horizonte (MG). A festa se estende a ritmos que, tradicionalmente, não fazem parte dos cortejos carnavalescos brasileiros. Pop, carimbó, funk e cumbia são alguns dos gêneros que foram incluídos à folia belo-horizontina pelos blocos de rua.

Essa integração é feita de uma forma bem particular: o repertório de diferentes gêneros musicais é inserido aos cortejos dos blocos à medida em que são mantidos os tradicionais instrumentos e ritmos de percussão. Musicalmente falando, a mistura quebra os rótulos pré-estabelecidos – a que ritmo musical, afinal, pertence essa reestilização?
 

Funk

O Funk You, bloco que dedica seu repertório unicamente ao funk – do raiz ao proibidão – é um exemplo de como variados ritmos se aderem ao carnaval. “A gente não pega outras músicas, de outros estilos, e transforma em funk; a gente pega músicas de funk e, às vezes, toca em outras batidas”, explica Lucas Moraes, músico, produtor e idealizador do bloco.

 

Por isso, Lucas Moraes afirma: trata-se de uma reestilização do gênero musical brasileiro, feita pelo bloco que se propõe a, segundo o produtor, “fazer uma bateria de escola de samba tocando a batida do funk”.

 

Cinco ritmos principais são utilizados para que o funk saia no carnaval de BH: funk, funk melody, maculelê, pagode baiano e samba. Uma característica comum é a base afro-brasileira da maioria – à parte do funk melody, tradicionalmente norte-americano, que serviu de base para a criação do funk brasileiro como hoje é conhecido.

Cumbia

Diferentemente do funk, a cumbia é um ritmo de origem colombiana que, no Brasil, nunca foi tão popular e difundido. Mesmo assim, os idealizadores do bloco Cómo Te Lhama? – de diferentes partes da América Latina – apostaram no reconhecimento latino-americano para levar o gênero musical às ruas de BH.

 

Para isso, diferentes ritmos são usados pela bateria do bloco. Tem quatro levadas de cumbia, guaracha, maracatu, afoxé, ijexá, reggae, carimbó, quarteto, bolero e até marchinha – o que é suficiente para criar uma cumbia digna de integrar a folia da cidade.

 

O gênero musical, em sua essência, varia de acordo com o país e com o contexto de criação. Por exemplo, existem a cumbia villera, oriunda dos guetos argentinos no final dos anos 1990, e a cumbia chicha, que tem uma pegada mais psicodélica a partir da inserção de instrumentos elétricos no Peru de 1960.

Instrumentos básicos da cumbia

  • Tambora – tambor grave, próximo à alfaia e à caixa de folia;

  • Llamador – tambor que marca o tempo da cumbia;

  • Tambor alegre – tambor que preenche e floreia os ritmos;

  • Maracas – chocalhos de origem predominantemente indígena;

  • Guira – raspador que quebra o ritmo.

Com os instrumentos de percussão sendo inseridos no estilo musical, um outro estilo de cumbia vem nascendo no Brasil a partir do Cómo te Lhama?. “O legal de BH é que a gente tem uma cumbia de carnaval: uma cumbia que vai ter o peso de um bloco de carnaval”, explica Carlos Jáuregui (Bolívia), músico, professor e integrante do bloco.

É pela adição de instrumentos como a alfaia e o surdo que desponta a chamada a nova vertente do ritmo latino-americano. “Ela soa muito brasileira – e muito mineira, e muito do carnaval mineiro”, explica Bolívia, que ressalta a relevância do tambor e da percussão para a criação da cumbia de carnaval. “É uma regionalização bem louca”, completa.

 

Apesar das variações, o gênero musical continua sendo a cumbia. Isso não se dá simplesmente pela escolha rítmica ou instrumental. Para Jáuregui, a performance, o sotaque, a corporeidade e a instrumentação também são capazes de caracterizar o estilo. “Tem todo um espetáculo, uma estética de cumbia que está para além do ritmo”, explica.

Tratar o gênero musical para além do ritmo é complexo. No carnaval de BH, essa ideia guia não apenas o Cómo Te Lhama?, mas também o Garotas Solteiras, bloco que se autodenomina LGBT e feminista. Em seu repertório, há artistas que vão desde divas pop, como Britney Spears e Ariana Grande, até representantes LGBT, como Pabllo Vittar e Johnny Hooker.

 

No bloco, o principal gênero musical é o pop. Mas, para os integrantes, o pop não está só no ritmo: está relacionado às paradas musicais, aos hits das rádios. “O funk pode ser pop, o sertanejo pode ser pop, o forró pode ser pop”, explica Edu Ruas, vocalista, diretor de comunicação e diretor artístico do Garotas Solteiras. “Se a gente for pensar em pop, tem até tecnobrega, tem muita coisa diferente”, completa Jhonatan Melo, regente e diretor musical do Garotas Solteiras.

 

É por isso que os integrantes sintetizam que o bloco toca divas pop em ritmo de carnaval. “Música pop tem em outros vários blocos, mas o Garotas é um bloco voltado para as divas”, diz o vocalista. O próprio nome do bloco, inclusive, vem da tradução direta da música Single Ladies (Put a Ring on It) (2008), hit da diva pop Beyoncé.

 

A reestilização dessas músicas pop é marcante no bloco. Como exemplo, os integrantes citam as músicas I Will Survive (1978), de Gloria Gaynor, que foi transformada em um samba-reggae, e Just Dance (2008), de Lady Gaga e Colby O’Donis, que, segundo Edu Ruas, “é um ‘popzão’ eletrônico na versão original e, no Garotas, a gente fez virar um pagodão”.

Pop

O reconhecimento não é exclusividade do Garotas Solteiras: vem, ainda, a outros blocos que lutam pela representatividade. É o que acontece no Bloco da Fofoca, que se propõe, desde 2014, a tocar carimbó no carnaval. “Isso é uma coisa que a gente ouve dos foliões, principalmente os paraenses, que dizem ‘olha, como é legal a gente ver a nossa cultura sendo representada com carinho, com cuidado, por vocês aqui’”, conta Marina Araújo, regente do bloco.

 

Derivado do Grupo Folclórico Aruanda, que tem o objetivo de difundir a cultura popular brasileira, o Bloco da Fofoca reconhece a riqueza do ritmo paraense. “Estamos levando, juntos, uma manifestação popular que é muito importante lá no Pará e que às vezes não chega para a gente aqui, no sudeste”, explica a regente.

 

Carlos Jáuregui (Bolívia), do Cómo te Lhama?, já havia explicado que “aqui no sudeste, a gente está muito afastado das fronteiras”, o que impede que a cumbia seja incorporada aos ritmos e à cultura brasileira de forma aprofundada. O carimbó paraense, por outro lado, já teve forte influência desse movimento.

 

Os ritmos e os instrumentos usados pelo Bloco da Fofoca atestam isso. Alfaia, caixa de folia, maraca, ganzá, abê, agogô e naipes de surdos compõem a parte instrumental, semelhante à incorporada no bloco de cumbia. Carimbó, retumbão e lundu são os ritmos incorporados ao repertório do bloco.

 

Porém, diferentemente do que é feito na maioria, o Bloco da Fofoca não busca por reestilizações. “A proposta musical do bloco é tocar como eles tocam lá, no Pará, do ponto de vista sonoro, da musicalidade”, explica Marina Araújo. A ideia é “tentar respeitar ao máximo o que é o carimbó – não inventar um carimbó da nossa cabeça e chamar de carimbó”, completa a regente.

Carimbó

“Isso é uma leitura de bateria de escola de samba, a gente trabalha muito com isso, mas não faz só o samba: a gente viaja em outros ritmos, mas com essa mesma instrumentação”, explica Rubem Kurunga, diretor de bateria do bloco Funk You.

 

Um exemplo disso é a música ‘Pararabumbum’ (2019), lançada pelo bloco no final de janeiro de 2019, às vésperas do período oficial de carnaval. “A gente colocou todos os funks – o funk melody, o funk afro (maculelê) e o pagode baiano, e no finalzinho, nos últimos compassos, tem uma salsa”, observa Kurunga.

 

“O funk sempre esteve muito ligado ao carnaval no Brasil porque grandes hits de funk foram lançados durante os últimos carnavais”, explica Moraes. Criar o Funk You foi, então, inevitável para legitimar o gênero nas ruas. “Ele já estava presente, mas não dessa forma que a gente o introduziu”, completa.

Um desafio a ser explorado é a forma como esses ritmos se transformam em batucada de carnaval. Apesar da técnica musical e das pesquisas, é o feeling que prevalece: “a gente estuda e tenta encaixar minimamente, sem forçar, respeitando a essência da música, o que foi feito lá na gravação”, esclarece Jhonatan.

 

A experimentação de trazer o pop para o carnaval tem dado certo, com um público de 200 mil pessoas no cortejo de 2019. “Eu vi o Garotas conseguindo incluir estes dois grupos: tanto o grupo que ama o tradicional carnaval quanto o grupo que preferiria estar num show diferente, de música pop”, observa Natália Barros, flautista do bloco.

 

A representatividade e a luta que o bloco carrega consigo também tem trazido resultados: com os olhos marejados e a voz embargada, Edu Ruas conta casos simbólicos de aceitação LGBT, de reconhecimento racial junto à banda majoritariamente negra e de empoderamento da mulher. “O Garotas atesta para mim que o carnaval é de todo mundo, que tem espaço para todo mundo, que ninguém fica de fora”, conclui o vocalista.

A execução, por outro lado, é diferente: por questão de viabilidade, há uma adaptação dos instrumentos usados. “Dentro do carimbó, não há criação; o máximo que acontece com a nossa música é uma simplificação por conta da limitação do instrumento”, conta Marina Araújo. “A gente teve essa preocupação de sacar como se toca e transportar isso pros instrumentos que a gente tinha disponível”, completa.

 

Por conta disso, o agudo das maracas são substituídos pelo do ganzá e do abê, o som do curimbó é passado para o agogô, e assim por diante. A musicalidade do carimbó é, então, mantida no repertório do bloco. “O que a gente faz são as notas mais fortes, que são as que dão mais característica ao carimbó”, explica a regente, mencionando a marcação do ritmo.


E, em uma viagem ao Pará, isso teve aprovação do mestre de um grupo de carimbó, o Mestre Diquinho. “Eu levei minha caixa de folia, mostrei pra ele e falei ‘mestre, é assim que a gente toca lá em Minas Gerais’”, conta a regente. “Ele curtiu e falou que, de fato, dialoga”, completa Marina Araújo, que se diz orgulhosa de divulgar a cultura popular brasileira em sua essência.

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