Carlos Bolívia em sessão de fotos de divulgação de seu novo projeto solo, Carlos Bolívia e os Médicos Cubanos 

Foto: Área de Serviço

Carreiras musicais

além do carnaval

Por trás dos blocos que levam os foliões à rua e fazem o carnaval de BH, estão pessoas que se dedicam a entregar o trabalho com a melhor qualidade possível. Na parte musical desses blocos – principalmente na banda e nos vocais –, tem artistas que produzem suas carreiras paralelamente à folia belo-horizontina.

 

Influências nas músicas dos projetos solos, visibilidade dada pelos trios elétricos, facilidade de participação no carnaval pelo conhecimento musical prévio e possibilidade de divulgação das músicas autorais são algumas das variáveis que tornam diferente, para cada artista, a relação entre ambos os projetos.

Carlos Bolívia

Integrante do bloco Cómo te Lhama?, Carlos Bolívia considera que teve uma entrada tardia no universo da música. “Com 20 anos de idade, eu não achava que seria músico profissional”, conta. Mas foi depois de alguns projetos, como a banda Djalma Não Entende de Política, que a sua participação no carnaval começou a ser mais efetiva, a partir do contato com o grupo de pessoas relacionadas à organização dos blocos.

 

O primeiro trabalho foi na guitarra do Juventude Bronzeada, a pedido do guitarrista do bloco. Sua performance começou a ser sentida: “eu comecei a ser requisitado com demandas, com briefings”, explica. Além do Juventude, o Cómo te Lhama? e o movimento Tarifa Zero – que também participa do carnaval – foram alguns dos blocos dos quais Bolívia participou de alguma forma, como na composição e na instrumentação.

Musicalização em massa

Esse processo de ascensão musical pós-carnaval não está apenas em artistas profissionais. O público carnavalesco sente, de forma geral, a musicalização em massa que vem com o carnaval: “a pessoa que não consegue nem bater palma direito entra em um bloco e consegue tocar aquilo mais bonitinho, mais certinho”, explica Bolívia.

 

Por outro lado, às pessoas de um nível musical semi-amador, o carnaval encoraja que esse universo profissional possa ser explorado. “É um processo o que o carnaval faz, muita gente até mudou de profissão”, completa o músico.

 

Por isso, na visão do artista, a questão do ego deve ser trabalhada no carnaval: “a pessoa que está em cima do trio – o cantor, o guitarrista – não se achar melhor do que o batuqueiro porque está em um lugar que vai ter mais holofote”.

 

O acesso ao conhecimento musical tem tanto valor quanto toda a técnica necessária para comandar um trio elétrico. “O fenômeno de musicalização em massa dentro do carnaval é muito mais legal do que saber tocar uma guitarra, por exemplo”, completa Bolívia.

Com poucas exceções, o carnaval de BH é feito, basicamente, de releituras de músicas já conhecidas, e, para Carlos Bolívia, os músicos acabam sendo conhecidos enquanto covers desses artistas. Então, ele argumenta que há de se achar um meio-termo para que ambas as produções – autoral e de interpretação – sejam valorizadas.

 

“É possível combinar as duas coisas, e a gente tem que ser estratégico”, afirma. Uma das possibilidades que ele enxerga é a de aproveitar a força da bateria para a divulgação do trabalho autoral dos artistas. “É falar com as pessoas ‘a gente vai tocar uma música agora que é do Djalma’”, exemplifica Bolívia.

 

No novo projeto solo Carlos Bolívia e os Médicos Cubanos, o músico conta que tem muita influência vinda dos seus projetos anteriores, inclusive do carnaval. A performance, o sotaque e o jeito das músicas lembram o carnaval, mas não são músicas pensadas para esse fim. “Em nenhuma música vai ter um repique, por exemplo, em nenhuma música vai ter um surdo”, explica Bolívia.

Octávio Cardozzo

Diferentemente das produções de Carlos Bolívia e os Médicos Cubanos, ‘Debaixo D’Água’ (2019) foi a aposta específica para o carnaval feita pelo cantor, integrante do bloco Corte Devassa e fundador do bloco Haja Amor, Octávio Cardozzo. E o objetivo foi cumprido: segundo ele, a música foi tocada em diversos blocos e festas de Belo Horizonte.

 

Mas não é a primeira vez que o artista faz referência ao carnaval de BH. No disco ‘Âmago’ (2017), há citações aos blocos Alcova Libertina, Corte Devassa e Então, Brilha! Todas essas produções vieram depois de sua inserção no carnaval, com a intenção de deixar o seu trabalho mais popular. “Eu vi que o contato com o público era diferente também, era mais caloroso, então eu quis trazer isso para o meu trabalho solo”, explica Octávio.

 

Essa foi, na verdade, uma barreira que ele conseguiu quebrar: adicionar músicas relacionadas ao axé e ao carnaval à sua própria carreira musical, que teve início após a sua participação no reality show musical Ídolos, em 2009. “Eu cresci na década de 90, e axé era coisa horrível, brega, e a gente sempre repetia isso… mas hoje a gente está aí cantando”, conta o artista.

 

Empreender sua carreira musical em Belo Horizonte (MG) foi um dos grandes impasses para isso. “A gente tem um histórico muito pesado – é a cidade do Clube da Esquina –, então a gente tem esse fardo de música mais sofisticada”, explica Octávio Cardozzo. “Quando a gente começa a querer entrar na música em BH, a gente já tem essa coisa de querer fazer uma música mais sofisiticada”, completa.

 

Sua avaliação é a de que, depois da retomada do carnaval, esse panorama tem se modificado. “Hoje, a gente tem um mercado musical em BH, tem pessoas dessa geração mais nova que estão se formando para ser instrumentista no carnaval e já têm uma carreira no carnaval”, explica o cantor.

Thales Silva

Sim, há um mercado musical carnavalesco em BH. Mas esse não é, necessariamente, o foco musical de todos os artistas que compõem a festa. É assim que Thales Silva, um dos fundadores do bloco Juventude Bronzeada, percebe o movimento. Para ele, “o Juventude foi tomando um outro caminho, de ambientes mais festivos, de ambientes de celebração”.

 

Por isso, a influência musical não está entre todas as demais influências vindas com a sua participação no bloco. “Meu trabalho com A Fase Rosa, com o Minimalista, são trabalhos mais introspectivos, mais ligados à MPB”, explica o artista, mencionando seus projetos autorais – a banda e o trabalho solo, respectivamente.

 

Na mesma época em que fazia parte d’A Fase Rosa, começava a movimentação da Praia da Estação, ato político fundamental para a retomada do carnaval de BH. “Foi nesse momento que eu virei, junto com os meninos da banda, uma referência na música independente de BH”, conta. No calor do momento, foi criada a banda Juventude Bronzeada – e, com seu sucesso, teve a sua estreia como bloco no carnaval em 2013.

 

É claro que, diante de todas essas participações, a figura de Thales Silva tomou maior projeção no cenário musical da cidade. Mas as diferenças entre o projeto do carnaval e o que ele planejava para a sua carreira solo dificultavam a compreensão de quem, realmente, o artista queria ser. “Foi preciso que eu pensasse como comunicar isso e como fazer um trânsito, até porque os trabalhos não têm tanta similaridade”, observa Thales.

 

Assim, com o apoio de sua rede de contatos, foi criado o Tranquilo. O projeto é realizado todas as noites de terça-feira em sua própria casa, em uma espécie de sarau, reunindo pessoas da cena autoral de Belo Horizonte, “onde as pessoas vão, de fato, para curtir cultura – de sentir muito prazer, curtir um show de fato”. A ideia é que os ouvidos estejam atentos e os corações abertos ao que é tocado ali.

 

“Acho que o Tranquilo tem muito mais a ver e me dá muito mais projeção em relação à minha música autoral do que a Juventude, embora ela contribua também na visibilidade”, completa Thales Silva. Assim como na retomada do carnaval, o encontro de músicos e apoiadores para escuta e debate da cultura aproxima e reconecta pessoas. “Nasce do mesmo sentimento – é até um renascimento”, finaliza.

© 2023 by PURPLE WAVE. Proudly created with Wix.com