Orquesta Atípica de Lhamas, banda derivada do bloco de carnaval Cómo te Lhama?

Foto: Beth Freitas

Enquanto os blocos de carnaval se dedicam aos cortejos no período estrito da festa popular, as bandas de carnaval nascem a partir deles, de sua composição musical, e levam ao público as apresentações fora de época. Essa dinâmica ajuda a manter vivo o espírito de carnaval ao longo do ano em Belo Horizonte (MG).

Produtores da cidade têm se atentado à relevância dos blocos de rua do carnaval belo-horizontino para contratá-los a festas, festivais e eventos privados. Festivais como Sonoriza e Jângalove, produzidos pela A Macaco, e demais festas realizadas pela O Mercado são exemplos de como os nomes das bandas de carnaval têm peso enquanto atração musical.
 

Dos blocos,

nascem as bandas

Financiamento

Uma das questões que podem ser levantadas por essa dinâmica é a motivação dos blocos de se usarem da estratégia de também serem bandas de carnaval. Tão comum quanto o fenômeno, é semelhante o estímulo: financiamento. Em um contexto de baixo incentivo público à cultura, é necessário encontrar alternativas para que se mantenham.

 

Bruno Perdigão, produtor e idealizador do Alô Abacaxi, afirma que a verba é necessária para várias frentes: “desde para colocar o bloco na rua até para atender os projetos sociais que a gente quer atender”. O Abacaxi, que teve sua primeira apresentação como banda no festival Divina Maravilhosa de 2017, atua em aulas de defesa pessoal, exibição de filmes e demais intervenções sociais.

 

De toda forma, a afirmação é quase unânime: a verba obtida pela banda nos shows é destinada a custear, principalmente, os cortejos de carnaval. Gastos com o trio elétrico, os equipamentos de som, a decoração e os adereços são os principais nesse período. Em casos que o orçamento continua sendo baixo, são bem-vindos os patrocínios de empresas como bancos, bebidas alcoólicas e plataformas de transporte.

Seja no financiamento, seja nas apresentações, percebe-se um aperfeiçoamento de processos que, antes, eram feitos de modos mais simples. Os shows ressaltam a parte artística que as bandas de carnaval carregam consigo por dois lados: musicalmente e na questão do espetáculo – o show como um todo.

 

As músicas, por exemplo, são tocadas de forma mais elaborada do que nos cortejos do carnaval. “A gente prega coisas que não são aplicáveis ao bloco por ser uma bateria grande, por ser um contexto de carnaval, músicos não profissionais”, explica Jhonatan Melo, regente e diretor musical do Garotas Solteiras, que define os shows como “um apuro conceitual, técnico e musical” dos blocos.

 

Em concordância, Bruno Perdigão exemplifica que “os arranjos musicais, as chamadas, são um pouco mais complexos justamente porque os percussionistas dão mais conta”. Esses arranjos, que resumem toda a parte rítmica, harmônica e melódica das músicas, são mais fechados, com uma variação mais previsível justamente por sua apuração técnica.

 

A pesquisa musical é indispensável para que haja tal aperfeiçoamento. Carlos Jáuregui (Bolívia), músico, professor e integrante do bloco Como the Lhama?, explica que “musicalmente, o período das grandes experiências, das novidades, meio que já passou”. E assim, do Cómo te Lhama?, surgiu a Orquesta Atípica de Lhamas, pelo desejo de continuar explorando a cumbia.

 

Hoje, as bandas dos blocos de axé, que já estão há cerca de seis anos nesse caminho,  passam a investir em outras esferas – como o conceito, a proposta, o figurino –, o que não é menos importante do que a parte musical do show.

 

A banda, que, às palavras de Carlos Jáuregui, “perde pressão no palco” pela ausência da bateria de percussão, dá os holofotes a outros elementos – o espetáculo como um todo. “Você ganha a inteligibilidade dos instrumentos”, exemplifica Bolívia. “O foco muda para a harmonia, para a performance dos vocalistas”, completa Jhonatan Melo.

Aperfeiçoamento

Produto

Esses aprimoramentos vêm mais facilmente quando se instala a noção de que a banda de carnaval está oferecendo um produto – ou prestado um serviço, em outra interpretação. “A gente vai ter uma preocupação de, já que você está vendendo um show, preocupar com aquilo mais em uma dimensão de produto”, observa Carlos Bolívia.

 

A retirada da bateria da composição musical é o ponto inicial para que a banda de carnaval seja pensada enquanto um produto a ser apresentado. “O lance é a logística, os produtores não contratam porque realmente é caro levar a bateria”, explica Jhonatan Melo. Por isso, “é complicado que você conte com uma bateria para fazer um show, sendo que a galera não recebe para tocar”, completa Edu Ruas.

 

No início, alguns blocos, como o Garotas Solteiras, seguiram com a proposta da bateria em apresentações da banda. “Tinha quase 30 pessoas no palco [da Virada Cultural], sem contar com a bateria, daí a gente percebeu que isso seria uma coisa insustentável”, conta o vocalista sobre o show de estreia da banda. O regente concorda: “a gente só não tem uma bateria porque é inviável, mesmo, porque minha vontade era fazer tudo com bateria”.

“Show é um serviço; carnaval, não”

Como afirma Carlos Bolívia, “show é um serviço; carnaval, não”. Para ele, na tradição do carnaval, “ninguém tem que ser músico profissional”. Afinal, de acordo com o músico, diferentemente da banda, o bloco de carnaval não é um produto a ser vendido – ele compõe a festa popular.

 

Essa afirmação atesta que os toques profissionais que são aplicados à banda nem sempre são possíveis e bem-vindos ao bloco de carnaval. “É o folião e o batuqueiro de carnaval que dão o espírito do carnaval”, observa Bolívia. “A gente tem que tomar certo cuidado para chegar lá e aquilo não virar uma aula de música”, completa.

Lançamentos

Diante de tanta profissionalização e formato, fica a indagação se as bandas de carnaval estão dispostas a se aprofundar na indústria musical. Isso não é novidade no carnaval de BH, tendo em vista que a composição dos hinos dos blocos, que ecoam nas vozes dos foliões, já cumprem parte desse papel. Mas e os lançamentos de músicas autorais?

 

Esse é um ponto que, sim, passa pela cabeça da organização dos blocos. Alguns, inclusive, já realizaram esse feito. Por exemplo, o bloco Juventude Bronzeada lançou o ‘Tropical Lacrador’ (2017), um álbum com oito músicas de autoria de representantes da cena independente de BH, como Thales Silva, Pedro Thiago e o próprio Carlos Bolívia.

 

Como sinalizou Bolívia, levando em consideração os integrantes da banda, “o autoral é uma coisa que está na veia da Orquesta Atípica de Lhamas”. Já foram criados o hino 'Cómo te Lhama?' (2018), por Bolívia, e as música 'Yo No Soy Gringa' (2018), por Claudia Manzo, e 'Yo Quiero Cumbiar' (2018), também por Carlos Bolívia. Adiante, tem mais músicas a serem lançadas, só falta decidir o formato: se serão mais singles ou se será um álbum.

 

O bloco Garotas Solteiras já tem uma noção mais clara do que pretende: lançar um EP com, no mínimo, quatro músicas autorais. “A gente quer ver se consegue lançar até o final deste semestre e início do próximo, mas está na fase de fundraising, depende de granas”, conta Edu Ruas.


Por outro lado, o Alô Abacaxi vai apostar em músicas soltas. “Com as coisas que eu tenho aprendido, vejo que não é tão legal mais você lançar um disco inteiro”, explica o produtor. Então, a ideia é de prosseguir com o que tem sido feito em 2018 e em 2019: “no nosso vídeo oficial, a gente lançar uma música autoral que seja a nossa cara, que tenha a ver com o processo daquele ano”, finaliza Bruno Perdigão.

Ter apenas uma banda desprovida da bateria tem a vantagem de ser mais adaptável a festas particulares, festivais e eventos fora do carnaval, de um modo geral. “Por isso a gente tem esse formato reduzido, que é um formato só da banda”, explica Bruno Perdigão, completando que, no geral, os integrantes da banda vieram do bloco.

 

A realidade é que os formatos são bem diferentes – dos ensaios às apresentações. Enquanto a banda Alô Abacaxi ensaia, religiosamente, toda semana, “os ensaios do bloco já têm um tempo maior, mais intensificados no começo do ano, antes do carnaval”, explica Bruno Perdigão. Nas apresentações, o foco está na performance dos integrantes.


Essa diversidade de produtos e suas formas de gerenciamento já estava no cerne do Alô Abacaxi desde sua concepção. “A gente não tem escrito ‘bloco’ em nada; todas as coisas são produtos do que seria o Abacaxi”, conta o produtor, mencionando que o cortejo do carnaval é a junção de todos eles. “O bloco alimenta a banda, e a banda alimenta o bloco; uma coisa não elimina a outra”, completa.

© 2023 by PURPLE WAVE. Proudly created with Wix.com